Entrevista com Claudio Pádua

14 Mar, 2014

Entrevista com Claudio Pádua

O Fundador e atual vice-presidente do Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ), Claudio Padua, esteve no evento de inauguração do complexo Ecoparque, nesta quarta-feira (12/03), em Benevides, no Pará, e elogiou a iniciativa da Natura.

Pádua faz parte do Conselho consultivo do Programa Amazônia, da empresa, e acompanhou de perto o desenvolvimento deste projeto, que deverá beneficiar 10 mil famílias extrativistas até 2020. Para o fundador do IPÊ, iniciativas como esta abrem caminho para um crescimento sem precedentes rumo a meios de produção mais sustentáveis no Brasil.

Confira a entrevista.

Blog – A construção deste centro serve para a empresa ficar mais próxima das cadeias fornecedoras de insumos, que estão bastante concentradas do Pará?

Claudio Pádua – A ideia é essa, mas não é só isso. É criar novas cadeias, na Amazônia toda, e servir de epicentro para uma nova filosofia em que as comunidades fazem parte dos processos produtivos, das cadeias. Isso é fantástico e, para mim, totalmente inovador.

Nos últimos anos tenho focado muito na ideia de que é preciso criar uma nova economia, onde a produção seja como esta, que a Natura está construindo aqui. Que envolva as comunidades, que envolva a formação das comunidades, o uso dos produtos da floresta e que permita que a floresta fique em pé, gerando um valor econômico comparável ao da economia tradicional, que destrói a natureza

Então, se a gente chegar neste ponto, estou acompanhando a Natura e ajudando em tudo o que posso, a gente pode evoluir para um Brasil totalmente diferente, como ele deve ser . O País campeão mundial de biodiversidade tem que fazer de sua biodiversidade o seu desenvolvimento, sem destruir a mesma.piprioca

E aí tem que ter alguns cuidados, que é o que esse grupo faz, na relação com a comunidade e na relação com a natureza.

 

Do seu ponto de vista, qual a maior dificuldade que uma industria enfrenta para trabalhar com as cadeias produtiva das comunidades atualmente?

Há uma disparidade nas relações que precisa ser trabalhada com antecedência. Porque uma comunidade não esta acostumada a produzir em larga escala, nem a ter uma constância no preço, na qualidade ou na quantidade. O grupo industrial não pode ficar sem uma destas três coisas, é preciso que aquilo seja mantido. Sem preço, prazo e qualidade, não é possível. Isso significa que é preciso discutir na comunidade se ela quer entrar nessa historia e trabalhar junto, começar o processo devagar. É uma grande mudança no processo tradicional, pelo preço, prazo e qualidade, que sirva para os dois lados ganharem, pois a coisa só é boa quando os dois lados ganham. A Natura vem fazendo isso e com antecipação.

Nesse processo, é preciso fazer um monitoramento constante. Pois as vezes algo pode até aumentar a renda, mas está destruindo mais a biodiversidade. A diretoria da Natura passou uma temporada na Amazônia, antes de entrar neste programa. Chamou gente de fora, da sociedade civil, colocou muitos de seus executivos maiores no processo. Então construiu de forma bem sólida, olhando bem para a região , para não pensar só no “isso traz renda, vai pagar imposto”. Não é só isso. É muito mais que isso. É preciso inserir a comunidade na nova economia, de modo que ela compreenda uma cadeia industrial.

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Até 2020 a Natura tem o planejamento de chegar a 10 mil famílias fornecedoras. Esse fato abre uma boa perspectiva para as comunidades que estão começando a desenvolver cadeias produtivas?

Sim. Acho excelente, pois também as comunidades podem se preparar antecipadamente, podem vivenciar a mudança lentamente e com isso ganhar vantagens espetaculares. Ao ter um choque cultural tão tremendo, que é o choque entre uma indústria grande e uma produção comunitária. Isso tem que ser preparado com muito cuidado. Estamos falando de pessoas.

 

No Amazonas o IPÊ tem o projeto Eco-Pólos Amazônia XXI, que tem obtido ótimos resultados com o apoio em capacitação das cadeias produtivas do Baixo Rio Negro. Como você vê este movimento dentro da cultura tradicional?

Essa é uma decisão que tem que ser discutidas com as comunidades, se elas querem ou não ser capacitadas. Isso tem que ser bordado com honestidade e com princípios. Porque é fácil você chegar e dizer “Vocês todos vão ganhar o mundo”, e não é isso. Temos que discutir, trabalhar, mostrando o que são as coisas, para não forçar a mão de ninguém.

Mas temos que nos engajar nisso, porque na economia tradicional, a pecuária, os avanços da atividade agrícola sobre as florestas, eles são inevitáveis. Para fazer isso mudar, é preciso criar uma economia que faça uma competição saudável com as formas tradicionais e onde as comunidades possam sair do extrativismo tradicional, para um novo processo de produção, mantendo a sua condição intrínseca, seus valores, sua felicidade e permitindo que outros entrem no processo da cadeia produtiva e ganhem também.

 

Por Rosana Villar/!Bnn

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